Alabama Monroe (2012) é mais um filme desconhecido que você precisa assistir.

O drama belga conquista pelo seu romantismo alegremente melancólico.

     Quando penso em filmes de romance, gosto daqueles mais dramáticos possíveis: acredito que sempre há algum ensinamento possível a se retirar deles. Nunca fui fã de filmes românticos melosos que muitas vezes sensacionalizam cenas em busca de audiência, mas respeito sua proposta e seu lugar em nossa cultura carente-sonhadora. Ainda assim não nego: prefiro assistir um romance dramático bem triste mas que ao fim sei que o que ele mais quer é retratar (ou se aproximar) um pouco da nossa realidade, um pouco do que sejam os nossos relacionamentos interpessoais. Meu pai sempre me disse que os erros dos outros me servem de vitória, sendo assim, sempre tirei lições desses tipos de filmes que, apesar de fictícios, são bem realistas em sua proposta, até porque, como canta Humberto Gessinger, “a vida imita o vídeo”.

     O belga Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown), do diretor belga Felix Van Groeningen, consegue se encaixar muito bem naquilo que considero de romance dramático. Antes de mais nada, não pense que filmes nessa categoria são um mar de tristezas: há tanta beleza em seu decorrer que os deixam alegremente melancólicos, como um verdadeiro paradoxo. O que está mais a ser percebido nele é o quanto de ensinamento ele pode trazer para o telespectador, o quanto que, ao sentar e prestar atenção na história, que tipo de lição poderemos ter com aquilo que foi contado, até porque é cinema também é uma transmissão de mensagens. E o quero trazer aqui é um pouco do muito que aprendi subjetivamente nesse longa cinematográfico.

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   O filme conta a história do casal Didier e Elise e os altos e baixos envolvendo o relacionamento deles. Pode até ter uma premissa clichê, mas ele possui muitos diferenciais que o faz não ser um romance qualquer: Primeiramente, ele passeia em sua trajetória narrativa utilizando o recurso técnico da falta de linearidade (assim como em outro excelente romance dramático, Blue Valentine), recurso de utilização pouco comum no romance. Transitando desde o momento em que se conhecem e se apaixonam à momentos futuros conflituosos envolvendo a filha do casal, Maybelle, associada às diferenças religiosas entre os dois (ele, ateu, ela, religiosa), essa falta de linearidade dá um charme a mais ao filme. É aquela coisa né: quem gosta de filmes de romances, gosta de conhecer a história da relação do casal e, por variar em épocas, há aquela coisa de perceber como agiam os personagens em cada fase do relacionamento. Inclusive uma cena do início da paixão dos dois me chamou bastante atenção, principalmente pela forma que foi conduzida: é desenhada de maneira bem tocante, singela e real. A Elise, já apaixonada, como acontece com qualquer um de nós, sem ouvir direito o que o Didier dizia, mas observando a maneira que ele se expressava, apenas olhando em sua boca e em seus olhos (nessa hora a câmera de maneira sutil e minuciosa frisa muito isso). A beleza da paixão em cima do encanto em seus primeiros momentos. E nessas horas, todo defeito é relevante. A partir daí, entra o mistério da vida. Ninguém nunca sabe o porquê, apenas que acontece. E não adianta se arrepender depois, tinha que ser.

     Outro diferencial de Alabama Monroe é o delicado casal de protagonistas, Didier (Johan Heldenbergh) e Elise (Veerle Baetens), personagens extremamente sensíveis (olha eu falando de sensibilidade novamente) e que vivem no meio artístico musical. Ambos fazem parte de uma banda de bluegress, gênero musical que desconhecia até então (que possui um estilo meio country, meio folk), que tem o banjo como instrumento característico. O casal também é marcado por sua sintonia (parabéns aos atores), que nos faz acreditar que tudo que é passado em tela é verdadeiro. Eles também são um casal nada clichê. E, para mim, casais nada clichês são encantadores. Viviam e pensavam a vida de forma bem simples e artística. Viviam a vida como se estivessem a todo o momento sendo tocados pela sonoridade conquistadora do banjo. A forma como se casaram – em meio a um bar – refutou o tipo de pessoas que eles eram. A vida não precisa de muita coisa pra ser bem feliz e vivida.  E o mais bonito é que, em meio a zona rural da cidade belga em que viviam, tentavam mostrar para a pequena filha o quanto a felicidade está nesses momentos mais simples. Uma das cenas mais bonitas que já vi num filme apareceu aqui, quando eles levam amigos para cantarem “The Lion Sleeps Tonight” para a pequena filha. Revi essa cena diversas vezes, confesso (e revejo até hoje).

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     Quando o filme começa a passar da metade e entra nos conflitos em que ele quer nos questionar, aparece o paradoxo comentado por mim anteriormente: a mescla de tons de tristeza e formosura na mesma cena. A trilha sonora suave, alegre e encantadora do bluegrass serve de função para isso, para não deixar todo o sentimento daquele cenário obscuro, mesmo que fosse realmente pra ser (além de que o filme consegue positivamente ter diversas cenas musicais sem cair na chatice e exagero).

     Em um verdadeiro efeito borboleta, devido a uma reviravolta, você consegue perceber o quão questionador aquele simples filme de romance pode ser: Muitas consequências das ações dos protagonistas não são bem entendíveis (quero evitar o máximo de spoiler aqui) mas o filme te imerge tanto na trama que você acaba aceitando aqueles atos por serem retratados de maneira bem humana, bem do que é a realidade. Poderia ser eu agindo daquela forma, poderia ser você, poderia ser qualquer um. Além disso, ele toca um pouco (ou muito) em algumas questões: As diferenças servem para nos unir ou futuramente para nos separar? Como lidar com elas? Como elas vêm à tona quando o assunto é algo bem trágico? Os defeitos do outro só aparecem através dos problemas ou pelo próprio desgaste de um relacionamento? Mais uma vez, eu não quero dar spoiler, mas aprendi muito com essas questões após o fim filme.

     Um outro aprendizado retirado por mim após o seu final é de como paixões podem te marcar, assim como tatuagens. Você nunca esquece por quem se apaixonou e como foi estar apaixonado por aquela pessoa. E, querendo ou não, sempre você será uma nova pessoa a cada nova paixão ou a cada fim de um relacionamento. Ah, a fotografia desse filme é linda demais, valorizando as belíssimas cenas musicais. Também conquista pela carga sensual dele, que beira o erotismo (bem poético, se assim posso dizer).

Alabama Monroe

     Reflexivo a altamente sentimental, acredito que Alabama Monroe se tornou um dos meus romances favoritos por unir nele justamente tudo o que aprecio e acredito que deveria ter filmes de romance: reflexões comportamentais envolvendo as relações interpessoais tendo o amor como plano de fundo. Nesse sentido, é uma bela história de romance e reflexiva em diversas temáticas, como luto, consequências de escolhas, respeito pelas diferenças e até mesmo em pontos mais polêmicos, como fé, religião, células tronco e eutanásia.

     Pode até não ser um dos mais conhecidos (pelo fato de ser europeu e belga), mas é um dos que mais me tocaram nesse sentido. A tristeza aqui é sensível, alegre e te chamará bastante atenção. Se você irá chorar eu não sei, mas com certeza você irá ser marcado pela intensidade que é esse filme, intensidade de sentimentos opostos. Estes irão te fazer refletir em muita coisa e conseguirá a marcar sua vida também, se não pelo filme em si, mas pelo amor do casal, ou, talvez,  pela trilha sonora simples e maravilhosa do banjo no bluegrass.

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