Lars Von Trier e o anticristo da natureza humana.

Lars Von Trier sempre foi um diretor que me chamou bastante atenção. Dinamarquês, um dos cofundadores e pioneiros do uso do dogma 95 (movimento cinematográfico) e fortemente ligado ao comportamento humano, seus filmes são reconhecidos por possuir intensa carga emocional e comumente considerados pelo público como “depressivos”. Apesar de muitas vezes polêmico, gosto quando o mesmo diz que cinema é mostrar o que se tem vontade nos filmes, assim, evitando a censura de ideias. Em Anticristo (Antichrist, 2009), Von Trier esteve numa fase extremamente crua nesse sentido.

Escrito em um período de depressão do próprio diretor, Anticristo é considerado o primeiro filme da chamada “trilogia da depressão”, escrita pelo dinamarquês (composta também por “Melancolia” e “Ninfomaníaca”). A história aborda a vida de uma jovem mãe (Charlotte Gainsbourg, brilhante) que cai em uma profunda depressão – associado a um extremo sentimento de culpa – logo após a trágica perda de seu único filho. Em uma tentativa de superar o trauma, seu marido terapeuta – Willem Defoe – propõe a ela que os dois viajem para o local que mais lhe desperte medo, como estratégia terapêutica de superação da própria dor que permanece na mesma. Nesse sentido, o filme, dividido em capítulos – recurso comumente usados nas obras do diretor – vai mostrando o ao telespectador, em seu desenvolvimento, o quanto o processo terapêutico sai do controle, pois, assim como no Éden da história bíblica ocorreu o primeiro pecado, relacionado à tentação de Eva, é no Éden fílmico (local onde o casal vai) que também o anticristo da natureza humana (feminina) irá florescer. Ou pelo menos, essa é a ideia que criador do filme quis mostrar.

ac1

Continuamente nessa reflexão, o cineasta explicita bastante a sua forma de pensar a natureza humana: “natureza é a igreja do anticristo.” Essa é uma das profundas frases encontradas em diálogos no longa, esta no caso, dita pela personagem da Charlotte Gainsbourg – que, por título de curiosidade, não possui nome retratado (assim como o seu marido também, reconhecidos apenas como “she” e “he”), justamente para passar a ideia introspectiva para o telespectador que a nossa natureza metaforicamente estaria representada ali nele e nela –  e percebemos assim como Von Trier entende o anticristo, dito por mim anteriormente: aquele presente em nossa natureza e que é contrária à natureza de Cristo, representada pela pureza e bondade. Em passagens bíblicas, o mundo é retratado composto por pessoas que já nascem em condição pecaminosa (“e o pecado está sempre diante de mim”, como escreveu o salmista Davi em Salmos 51). Só que, contrariando a esperança bíblica cristã da transformação do caráter pecaminoso através da figura de Jesus Cristo, o pessimismo crítico de Von Trier demonstra que a própria humanidade é o anticristo, justamente pela recorrência e eterna tendência para a maldade, perversidade (como disse Davi no salmo citado acima). ”As mulheres não controlam seu corpo. A natureza é que controla”, outra frase dita no longa que ratifica que somos suscetíveis a sermos dominados em todo momento pela nossa própria essência, que consideramos como pecado (dentro de um contexto cristão), mas que é algo prazeroso para o nosso ”dna humano”.

maxresdefault

Um exemplo disso vemos logo na primeira cena do filme, a cena que irá causar todo o seu desenrolar: A mãe viu seu filho cair, mas simultaneamente a isso, preferiu sentir o prazer físico do orgasmo enquanto estava transando com marido, algo que, se fosse exposto para a sociedade naquele contexto, geraria repúdio – além do próprio prazer carnal ser considero pecado dentro de uma lógica cristã. Nesse sentido, não entrou apenas o sentimento de dor e tristeza, mas também a de culpa incessante, que irá domina-la durante todo o capítulos do filme.

Possuindo o conflito por ela não querer ser perversa, mas se aceitando como uma, se subordinando à própria natureza e ao mesmo tempo, querer ser o que as mulheres são condicionadas a ser numa sociedade conservadora e preconceituosa como a nossa. Querer ser exemplo de mulher e mãe. E o terror psicológico do filme é extraído daí: de como o conflito e a incessante culpa transforma a personagem, fazendo-a capaz de realizar atos extremamente animalescos.  Não querendo entrar mais em detalhes, quero dizer que esses são apenas um dos pequenos pontos a ser visto num filme de tão simbolismo como esse… A emancipação sexual da mulher, interações religiosas e humanas… há uma série de temas que possam ser discutidos e analisados. Filme que possui cenas chocantes, além de ter uma densidade emocional profunda e chega a ser doentio e perturbador. E claro, há bastante sofrimento, porque sofrimento é algo que o diretor preza bastante. E no fim de tudo, é o caos que reina nessa sociedade. Pelo menos, na visão do ótimo Lars Von Trier.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s