Sobre músicas que tocam naquela saudade mais profunda.

Saudade é uma palavra que tem o charme brasileiro. Dizem que é uma palavra típica do português, já que não há tradução literal dela em nenhum outro idioma. Por vez e sempre gostar de escutar músicas sensíveis-melancólicas, percebi que o tema saudade era algo recorrente nas canções de minhas playlists. Nesse sentido, quis montar uma lista de canções que nos tocam com a saudade de alguma forma, retratadas em seus diversos contextos: seja por algo ou alguém, por uma fase da vida, por um relacionamento, por um lugar. Todas as explicações foram feitas justamente para diferencia-las nesse sentido, até porque entendo a música assim: “Eu sempre fui contra explicar música. A música tem que falar por si, certo?” (Rodrigo Amarante).

Tentei priorizar em colocar canções que nunca se encontraram de certa forma dentro de um circuito comercial-popular-radiofônico (sabendo que nem sempre é a proposta do artista alcançar isso com aquela música específica), valorizando assim canções de artistas brasileiros independentes (em sua maioria). Geralmente são canções famosas dentro de um circuito “alternativo”, de música e público, por mais que algumas músicas desses artistas possam ter saído do “limbo” (como diria Tim Bernardes, de O Terno, ao classificar o meio-termo entre o comercial e o underground) e ter alcançado popularidade (como, por exemplo, Los Hermanos alcançou com as canções “Anna Júlia”, “O Vento”, “Último Romance” e “Sentimental” – Essa última recentemente por ser trilha de novela da Globo). Então, nada, por exemplo, de músicas extremamente clichês como “Sozinho”, de Caetano Veloso (sem nenhum preconceito com músicas de sucesso popular, mas valorizando justamente aquilo que ainda é “novo” para a grande massa). Sem mais delongas, vamos lá:

“Pra Você Dar o Nome”, 5 a Seco (álbum “Ao vivo no Auditório do Ibirapuera”, 2012).

“(…) Do que sofrer de saudade de mim como eu tô de você, pode crer, que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo imagina só pra você.”

Talvez a música mais famosa dessa lista quando se fala em saudade ou “badzera”. O compositor, Tó Brandileone, retrata aqui aquela saudade clichê sentida pós um rompimento abrupto de um relacionamento na qual os dois ainda sentem algo um pelo outro, mas que, por algum motivo, houve um pedido de “tempo” por uma das partes. Então, resta a saudade para o eu-lírico ligada à momentos felizes do que foi vivido, com àquela pequena expectativa possessiva de que irá vivencia-las novamente com a pessoa amada (“Quero é te ver dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê, e rezando pra um dia você se encontrar e perceber que o que falta em você sou eu”).

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“Sapato Novo”, Los Hermanos (álbum “4”, 2005).

“Só levo a saudade, morena, e é tudo o que vale a pena.”

Marcelo Camelo, autor da canção, trata aqui a saudade de forma mais depressiva e melancólica. Diferentemente da música do 5 a Seco, o rompimento de uma relação amorosa (sem termos a certeza se foi por um término ou por um falecimento) deixa o eu-lírico sem nenhuma esperança positiva para a vida e sem expectativas para uma eventual volta (“Como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar”). Nesse sentido, tenta encarar a nova fase da vida como um “sapato novo”, que dói e é estranho no pé no início, mas que depois acostuma.

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– “Eu que Não Amo Você”, Engenheiros do Hawaii (álbum “Tchau Radar!”, 1999).

“Senti saudade, vontade de voltar. Fazer a coisa certa, aqui é o meu lugar. Mas sabe como é difícil encontrar a palavra certa, a hora certa de voltar.”

Humberto Gessinger, um dos mais fenomenais compositores. Daria pra se fazer um texto reflexivo a respeito dessa canção, mas limito-me a dizer que me fascina a abordagem que o autor faz da saudade e de sentimentos negados. O eu-lírico, após terminar um relacionamento, se vê confuso quanto as suas escolhas passadas, percebendo-se que o que fez pode ter sido um erro, pois somente sozinho e preenchido da saudade, sentiu o quanto aquela pessoa amada era muito mais importante do que uma simples zona de conforto em sua vida. Porém, ao mesmo tempo, nega-se disso, pois sabe que, em meio à sociedade em que vivemos, demonstrar sentimentos sensíveis é uma fraqueza. É nesse sentido que se dá o título da música que, certamente, também traz um pouco do poema “amoroso esquecimento”, do Mário Quintana.

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“Volta”, O Terno (álbum “Melhor do que Parece”, 2016).

“Vem, volta, que eu estou te esperando desde que eu nasci, minha vida pro momento que eu te conheci e o amor que eu guardava eu guardei pra você. ”

Tim Bernardes (compositor e vocalista de O Terno) retrata nessa canção aquela saudade sentida por alguém que viu uma pessoa tão querida ir embora – seja por qual razão – porém com uma promessa de volta dessa pessoa (na música possivelmente um relacionamento à distância). Nesse sentido, a pessoa, não acostumada com a nova vida sem a outra em seus dias, lembra-se dos momentos bons que viveu junto com ela e ratifica ainda mais seu sentimento amoroso mostrando-a o quão é importante que ela volte a ficar perto dela (“tantos medos e manias que eu acumulei quando eu fico do seu lado eu costumo esquecer”).

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“Quando Bate Aquela Saudade”, Rubel (álbum “Pearl”, 2013).

“(…) E eu tô com uma saudade apertada de ir dormir bem cansado e de acordar do teu lado pra te dizer que eu te amo, que eu te amo demais.”

Sendo meio que uma versão oposta da música de O Terno, essa canção também retrata alguém que, por alguma razão, tem que ficar longe de pessoa querida. Diferentemente de Tim, Rubel aqui retrata a saudade do ponto de vista da pessoa que teve que ir embora, mostrando o quanto ela tá com vontade de voltar, no caso, também, para o relacionamento (“Não tem medo, não, a gente fica longe, a gente até se esconde e volta a namorar depois”).

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“Irene”, Rodrigo Amarante (álbum “Cavalo”, 2013).

“Saudade, eu te matei de fome, e tarde eu te enterrei com a mágoa.”

Rodrigo Amarante sempre foi um dos meus compositores favoritos. Nessa sua melancólica canção do seu primeiro e até então único disco solo, Amarante retrata a saudade metaforizada no nome Irene. É a saudade pela saudade, uma coisa que você não esquece por mais que se passem os anos, sendo um local, um momento, uma fase, uma pessoa, na qual teve que abandonar. A saudade guardada de forma amorosa e triste ao mesmo tempo (“Se ontem eu cantei teu nome, o eco já não morre cedo”). 

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“Nostalgia”, Vivendo do Ócio (álbum “O Pensamento é um Imã”, 2012).

“Eu só queria tomar um vento na cara, me deu saudade da Bahia”.

Aqui, conectada ao momento que a banda baiana viveu (ao ter que se mudar de Salvador para São Paulo), fala daquela velha saudade que uma pessoa tem da sua terra natal. Uma mudança pensada para ter que se viver um novo momento, um novo objetivo, uma nova fase, mas jamais se esquecendo de suas origens e de sua vontade de voltar (“Um dia vou voltar, minhas escolhas me guiaram até aqui, quando eu retornar é porque eu consegui”).

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“Motor”, Maglore (álbum “Vamos Para Rua”, 2013).

“Sinto saudades já não me recordo porquê.”

Teago Oliveira (compositor da letra) aborda a saudade aqui de uma maneira interrogativa, confusa. No contexto, o autor fala da superação de uma pessoa de um relacionamento frustrante, desgastante, de um sentimento amoroso que faliu ao tempo devido também às decepções. Porém, ainda assim, algo permaneceu daquilo, mesmo que não se saiba explicar o que necessariamente. Permanece algum sentimento envolvido, ou a saudade do sentimento que se sentia? Ou das coisas boas vividas naquele relacionamento? Dá margem.

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“Veja Bem, Meu Bem”, Los Hermanos (álbum “Bloco do Eu Sozinho”, 2001).

“Se eu te troquei, não foi por maldade. Amor, veja bem, arranjei alguém chamado saudade. ”

A tocante música composta por Marcelo Camelo (e também interpretada por outros grandes artistas brasileiros, como Maria Rita, Ney Matogrosso e Maria Gadu) trata da saudade em relação à certo comprometimento de alguém numa relação amorosa. A saudade dos primeiros momentos, ou de uma fase com uma maior ligação do casal, que aos poucos foi entrando no esquecimento. Sem sentir tanta a importância assim do outro na relação, ou nele próprio, o eu-lírico escreve para a/o amada/o, em tom de desabafo, o quanto já não se ver mais como um casal com ela/ele (“sem um porto, quase morto, sem um cais/Somos no papel, mas não no viver”). Porém, essa música traz um aspecto interessante: a da surpresa. Na primeira vez escutada, você crer que, para amenizar essa tristeza sentida, o eu-lírico busca a traição com um outro ser. No fim, porém, você descobre que essa traição não é mais nada além da personificação da saudade. A pessoa foi “substituída” pela saudade dela mesma, em tempos passados. Grande reviravolta, de um grande compositor.

Menções honrosas: “Saudade”, Marcelo Camelo, “O Girassol”, Ira!, “O anjo mais velho”, O Teatro Mágico, “Café a Dois”, Ana Larousse, “Nos”, Anavitória.

 

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