Death Note (2017): péssimo filme, péssima adaptação.

    “Death Note” é o novo filme produzido pela gigante do streaming Netflix, e é uma livre adaptação homônima em live-action do amado mangá japonês criado por Tsugumi Ohba  (que posteriormente foi transformado em um anime com duas temporadas – sendo a história da primeira sendo apresentada no filme). Dirigido pelo norte-americano Adam Wingard, conhecido por dirigir filmes de terror como “Você é o próximo” (2014) e o mais recente “A Bruxa de Blair” (2016), a primeira versão  cinematográfica estadunidense do mangá optou por fugir bastante do material fonte (o diretor admitiu isso em algumas entrevistas) e essa decisão pareceu custar muito caro. O maior problema do filme está justamente em uma das coisas que o mangá/anime tem de melhor: a personalidade dos personagens. Caso seja fã, tenha certeza que as chances de se decepcionar são bastante altas. O filme não só acaba sendo uma péssima adaptação, como também não funciona e não te prende como um thriller, e é esse ponto que vou tentar demonstrar aqui, com foco na mudança feitas por essa nova versão (nesse sentido, possui leves spoilers do filme).

    Light Turner (houve a troca de sobrenome nessa versão ocidental) é um menino super inteligente que ajuda os colegas da escola a passar nos testes, após sofrer recentemente a perda da mãe por um criminoso (primeira diferença para o anime). Após encontrar na escola o misterioso “Death Note”, que tem o poder de matar apenas com uma escrita, Light começa a usá-lo, principalmente sob influência do seu dono, um shinigami (entidade sobrenatural da cultura japonesa) chamado Riuk, tendo como objetivo mudar o mundo limpando-o dos seres humanos maldosos. Ou seja, quer se tornar um verdadeiro deus do mundo pós-moderno escolhendo quem vive ou quem morre pelos seus valores. Além disso tudo, tenta chamar atenção de Mia, uma garota da escola no qual é apaixonado.

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O Light da Netflix (interpretado por Nat Wolff, de “Cidades de Papel”, numa atuação nada convincente) foge daquele menino calculista, introspectivo, persuasivo e ambicioso visto no na obra original, que o torna um personagem extramente interessante capaz de gerar ódio e amor nas pessoas. Perspicaz em suas atitudes, por ser um dos melhores alunos do Japão e mostrar uma inteligência rara para a sua idade, ele é transformado em um menino confuso quanto suas próprias intenções e convicções sobre o caderno.  Não se sabe ao certo se o mesmo queria vingança, fama, justiça ou até mesmo conquistar, com o poder do caderno, o coração da sua amada Mia (Margaret Qualley, de “The Leftovers”). Também aqui recebe total influência de suas decisões de Riuk (dublado pelo astro Willem Dafoe), que parece que tá no filme apenas para explicar umas regrinhas e ser o mentor de Light, algo que ele não faz no anime (lá ele é indiferente quanto às escolhas de Light, simplesmente segue o barco). Riuk parece ser um deus-sádico que tem vontade de ver morte o tempo todo, inclusive ameaçando Light de retirar o caderno da mão dele caso ele não queria usa-lo.

Mia, o par romântico de Light no filme, é a garota que se apaixona pelo mesmo sem nem mais nem menos, parecendo que na verdade se apaixonou pela questão de poder que ele tem em suas mãos. É ela que influencia o Light, aqui é o Light que é bobo por ela – sendo uma versão totalmente contrário à do anime, onde Misa (nome original na obra oriental) é apenas mais uma peça no jogo do Light (que por curiosidade, se chama Raito na versão original japonesa), fazendo de tudo para agradá-lo.

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L, outro personagem extremamente interessante e amado no Mangá/Anime, é um detetive independente que foi convocado (e se torna aficionado) em encontrar a pessoa que está por trás desses crimes de matar à distância. No filme da Netflix, ele se mostra até bem adaptado nos dois primeiros atos, mostrando toda sua inteligência em solucionar casos – apesar de algumas de suas ideias intuitivas parecer que não foram tão pensadas assim, se tornando quase que uma presunção jogada para o telespectador – porém se perde totalmente no terceiro. Ele se torna um ser impulsivo extramente emocional, um investigador louco atrás de um assassino. Nesse sentido, simplesmente o filme escolhe jogar fora tudo aquilo que estava construindo em relação ao personagem.

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Se a escolha do filme fosse fugir mais da obra original, que se reinventasse na história e não nos personagens. Ao contrário, tentou-se também contar quase todos os fatos transmitidos na história original, no caso, como disse, a primeira temporada do anime (já que eu não li os mangás). Light como um deus, light sendo perseguido pelos agentes do FBI, a morte dos mesmos agentes, o recorte do caderno, câmeras vigiando a casa do Light, ideias sobre a vitima zero do “Kira” (nome dado por Light como referência para a população), tudo isso picotado e jogado na tela. O Sr, Yagami ops Sr. Turner, pai do Light e detetive de polícia,  também parece ser ingênuo aos fatos o tempo todo, sem ter aquela personalidade forte e implacável que o anime nos traz dele, onde possui verdadeiro senso de justiça e lealdade ao L. E, inclusive, a atuação mais fraca do filme é a do Shea Whigham, o intérprete dele. Não dá pra enxergar nele um policial envolvido num caso global tão perigoso. Ah, o caderno no filme também recebe um upgrade: ele se torna um verdadeiro Kilgrave – um dos vilões da Marvel que tem poder persuasivo. No caso, Light pode controlar todos os atos da pessoa por até 48 horas antes da sua morte. É um death note 2.0.

    Como um thriller, o filme estadunidense Death note não te prende, tem um roteiro apressado, é mal-editado, tem atuações fracas, personagens desinteressantes (você acaba não criando empatia por nenhum deles) e soa no fim como thriller adolescente, com mortes parecidas com o filme de terror “Premonição” (o diretor quis dar o toque de terror dele no filme). O fimzinho dele até que diverte com algumas reviravoltas “forçadas”, mas a última cena deixou um ar de ofensa, por mais que a última frase seja um clássica frase de Riuk, colocada como um verdadeiro fã-service. Como adaptação, além de todas as diferenças já citadas, também não toca em diversas questões reflexivas que a obra original nos traz, como a questão de ética x moral e de justiça x vingança. Talvez o filme funcione apenas como jogo de marketing para revelar para a grande massa os excelentes materiais fonte no qual ele foi baseado – no qual sou fã e indico fortemente. No fim, o Death Note da Netflix acabou sendo uma excelente oportunidade desperdiçada, já que poderia ter feito algo bem mais intrigante e inteligente, coisas que cativaram e transformaram Death Note em um dos animes e mangás mais icônicos da cultura pop atual.

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